Ela costumava escrever, costumava ter planos de entrar em um
avião e deixar o mundo que conhecia para trás, tinha um frio na barriga
corriqueiro na ansiedade de ser quem ela mais queria ser, uma aventureira.
Queria se apaixonar em Paris, desistir do amor e conhecer a Nova Zelândia, a Índia e cantarolar nas areias egípcias e depois se casar na
Grécia com um vestido branco e uma coroa de flores na cabeça. Ela queria ser simples, cozinhar por ali e por aqui, inventar
mil receitas, declamar poemas, escrever poemas, viver poesia.
Outra noite olhou através de uma taça com vinho, e viu seu
caminho, seus planos na redoma de uma baderna, se viu perdida e vivendo uma vida
que não lhe apetecia. Uma musica socou seu estomago, disparou seu coração e ela
começou a se perguntar quem ela era e onde tinha perdido os sonhos de menina.
Ah, se tudo fosse tão fácil, se houvesse mais coragem, menos
pessoas para satisfazer, ela se viu engolida por um mundo de ideias que lhe
foram direcionadas, ninguém perguntava o que ela queria, apenas diziam o que
ela deveria ser. Uma taça, duas taças...cinco taças, uma garrafa e muitas
lagrimas.
Ela adormeceu e com olhos inchados sonhou, sonhou mais uma
vez que seria quem desejava, se sentiu viva, sentiu na boca o gosto do que lhe
esperava, das paixões tórridas, do vento
no rosto, se viu gargalhando entre um café e uma viela, ela não pertencia ao
mundo em que tentavam lhe enquadrar, ela era uma sonhadora, não queria um carro do ano, ou uma mansão,
mas sim histórias pra contar, uma casa com balanço no jardim, ou um apartamento
com varanda que caiba uma namoradeira, uma samambaia e velinhas espalhadas.
Ela queria a paz de ser quem estava destinada a ser.
E se num redemoinho sem aviso fosse levada pra terra de OZ?
E se por uma sombra misteriosa fosse levada pra Terra do nunca? E se caísse em buraco com destino certo para o País das Maravilhas?
Ah, quem vai saber? E se?
Uma mariposa pousou no nariz, ainda adormecida sobre a
mesa, torceu o nariz, mariposa voou, e ela continuou ali, adormecida, com
olhos inchados, sem saber, ainda de mãos
atadas, por nós invisíveis.